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Parte 2 - Aprendendo mais sobre os 5 agregados

Durante a noite e no dia seguinte, Carla se percebeu várias vezes pensando no que seu pai lhe dissera sobre os cinco agregados. Mesmo sendo muito jovem, ela sentia sede por compreensão dos aspectos humanos, sobretudo após a morte da mãe.


A garota buscou seu pai querendo mais explicações e detalhamentos. Cícero lhe dissera que achava melhor que ambos conversassem com Dayalu, uma asceta amiga da família.


Dayalu era uma professora de Dharma compassiva e sempre disposta a falar sobre o budismo. Cícero apanhou o celular e enviou-lhe uma mensagem, com um convite para um chá da tarde seguido de bate-papo, que foi logo aceito para o dia seguinte.


Dessa maneira, chegou a tarde de terça-feira com o encontro entre Cícero, Carla e Dayalu. Os três tomavam seus chás e comiam alguns biscoitos salgados e doces enquanto falavam sobre assuntos diversos, até que Carla disse: “Day, papai estava me falando sobre os cinco agregados. Mas eu queria entender melhor como eles funcionam nas nossas vidas.”


Um sorriso tomou conta do rosto de Dayalu. A asceta tinha um olhar de satisfação. ”Minha querida, vamos explorar isso juntas", ela disse, enquanto ajustava sua postura para uma posição mais confortável. "Comecemos o primeiro agregado: a forma, que seu pai deve ter dito quese  trata de nosso corpo físico. Este corpo que habitamos é impermanente e está sujeito a mudanças constantes. É influenciado pela idade, saúde e até mesmo pelo ambiente ao redor. No entanto, muitas vezes nos apegamos a essa forma como se fosse quem realmente somos, quando na verdade é apenas uma parte temporária de nossa existência. É como disse o Buda no Sutra do Coração: 'Forma não é diferente de vacuidade, vacuidade não é diferente de forma. Forma é precisamente vacuidade, vacuidade é precisamente forma.' Isso nos faz lembrar que a forma física que percebemos é apenas uma manifestação temporária de uma realidade última, que é a vacuidade ou a natureza interdependente de todas as coisas."


Cícero e Carla tinham suas atenções totalmente voltadas para a professora.


"Em seguida”, continuou Dayalu, “temos as sensações, que surgem em resposta às experiências sensoriais que encontramos no mundo. Essas sensações podem ser agradáveis, desagradáveis ​​ou neutras, e elas moldam nossas reações e comportamentos. No entanto, se nos apegarmos excessivamente às sensações agradáveis ou se nos afundarmos na aversão às sensações desagradáveis, podemos nos perder em um ciclo interminável de desejo e aversão." Uma pequena pausa para um gole de chá precedeu a continuação da explicação. "O ensinamento que eu aponto aqui é um verso do Dhammapada, que diz 'Aquele que busca o prazer como recompensa é como alguém que olha para a escuridão e espera ver a luz.' . Lembre-se: o apego aos prazeres sensoriais pode nos levar ao sofrimento, pois esses prazeres são impermanentes e insatisfatórios.”. “Tudo bem até aqui?”, perguntou a asceta, ao que Carla logo acenou a cabeça como sim. Cícero ascentiu também com a cabeça.


“Muito bem. Há o Sutra do Lótus, onde é dito 'Aqueles que percebem o eu e os outros, os vivos e os mortos, estão presos na dualidade. Eles não compreendem a verdadeira natureza das coisas.' Acho que está claro que estamos falando da percepção, certo? Percepção é o terceiro agregado. Sua compreensão nos permite reconhecer e categorizar as nossas experiências sensoriais baseadas em nossas memórias e experimentações passadas. Porém, precisamos de atenção, pois nossas percepções nem sempre refletem a realidade objetiva, afinal, podem ser influenciadas por tendencias mentais, apegos e preconceitos. Uma lição do trechinho do sutra que eu disse a vocês é o destaque à ilusão da dualidade e a importância de transcendermos nossas percepções limitadas, para assim alcançarmos uma compreensão mais profunda da realidade. “


Dayalu então fez silêncio por um instante. Esboçando mais um sorriso, disse “Acho que já é bastante coisa para pensar sobre, não é mesmo?”


Mais uma vez Carla respondeu em prontidão “Não, Day! Fale mais, fale sobre os outros! Eu estou entendendo!”


Enquanto todos riam, Cícero olhou para a asceta Dayalu e lhe pediu “Continue, por favor, minha amiga. É muito bom te ouvir”.


“Tudo bem”, ela respondeu, “me parece que ainda há uma xícara de chá para cada um de nós na chaleira. Então enquanto tomamos, eu falo mais.”


Cícero servia a todos enquanto a professora retomava sua explanação. “Como bem sabem, o quarto agregado, Carlinha e Cícero, são as formações mentais. Elas abrangem tudo o que surge na mente: emoções, pensamentos, impulsos e padrões de comportamento. Essas formações mentais podem ser positivas, temperadas com amor e compaixão, ou negativas e contaminadas com raiva e ou avareza. A chave para abrir o mais favorável é cultivar a consciência dessas formações mentais e escolher respondê-las de maneira habilidosa. Vou fazer mais uma citação, vejam que estou deixando lição de casa: vocês podem depois procurar por essas fontes que eu cito. Enfim, o  Buda disse também em um verso do Dhammapada: 'Com a mente calma e tranquila, percebemos a verdadeira natureza das coisas. Com a mente descontrolada, sofremos.' Este verso está nos lembrando da importância que existe em cultivar a nossa mente, observando-a e identificando o que tempera ou contamina os pensamentos, a fim de alcançarmos o mais próximo da paz interior e da sabedoria."


Pequenos goles de chá e mordidas nos últimos biscoitos restantes antecederam a explicação que Dayalu tinha a dar para o último ítem. “Por fim, temos a consciência, que é a consciência em si ou conhecimento dos objetos e experiências. Ela surge da interação dos sentidos com os objetos e nos permite experimentar o mundo a nossa volta. Porém, da mesma maneira que os demais agregados, a consciência também é impermanente e está sujeita a mudanças. O verso que citei anteriormente é o de número 35 e pode ser revisitado aqui. É mais fácil termos ou atingirmos uma compreensão mais profunda quando nossa consciência está clara e sem distrações, quando a mente está tranquila e calma. Por isso, lembre-se de sempre olhar para as coisas da vida com atenção e respirando de maneira calma e controlada. E claro, de manterem suas práticas de meditação."


Todos se entreolharam e Cícero, após tomar o último gole de chá, disse "Então, se entendermos e aceitarmos a natureza transitória e interdependente dos agregados, podemos encontrar a paz nos vermos livres do sofrimento".


Dayalu assentiu, sentindo-se satisfeita pelo aparente da família. "Sim, amigo. Com esse cultivo, é possível transcender o sofrimento e alcançar a verdadeira liberdade. Esse é o caminho para a iluminação, que nos permite viver em harmonia com o fluxo da vida, aceitando cada momento com gratidão e compaixão."


Carla soltou em alto tom “Então é isso. Meta para a vida!” e todos riram, contagiados pela animação da garota e inspirados conhecimento compartilhado.  A conversa continuou enquanto o fim da tarde chegava, abrindo caminho para o anoitecer e para a reflexão  do momento de descanso.



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