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Desapego ou indiferença?

Atualizado: 9 de mai. de 2023

O dicionário trás dois empregos à palavra indiferença:

1 - falta de interesse, de atenção, de cuidado, de consideração; descaso; desdém. - _indiferença pela dor alheia_

2 - estado de tranquilidade daquele que não se envolve com as situações; desprendimento. - _via a sua própria morte com total indiferença_

Na primeira sentença, a atitude é antagônica ao pensamento budista, baseado em Karuṇā (compaixão, simpatia, a empatia com o sofrimento dos outros).

Podemos alinhar a excerto do monge Sarada Maha Thero em seus comentários sobre o Dhammapada:

_”Toda a virtude, ou vida virtuosa, é fundamentada no amor-bondade (metta) e na compaixão (karuna). Uma pessoa sem essas duas qualidades notáveis não pode ser considerada como dotada de moral. Ações verbais e físicas não coloridas com amor e compaixão não podem ser consideradas benéficas e saudáveis.”_

Já a segunda sentença pode estar assemelhada ao desapego budista, que nos convida a interagir, vivenciar, nos relacionarmos com as diversas coisas, porém, com a compreensão e consciência da impermanência, da efemeridade do mundo de Mara.

Na frase “via a sua própria morte com total indiferença’, quando a palavra indiferença é vista como desprendimento, demonstra a compreensão da morte como parte do fluxo da existência, passando por ela como coisa inevitável ao mesmo tempo que se passa por ela sem prender-se às ilusórias idéias de fim e preocupações causadas pelo medo e/ou apreensão com relação a ela.

O desapego, explicado pelo budismo, é o desapego com Karuṇā. A compaixão abrangente aparece quando percebemos a verdadeira realidade. A compaixão é expressada através de ações benéficas e não somente nos pensamentos compassivos. Ela se mostra através de ações compassivas. A indiferença que é desdém e/ou falta de consideração difere do desapego, porque este segundo usa como um de seus guias a compaixão ao notar o sofrimento dos outros seres no mundo e supera a indiferença insensível ao sofrimento dos seres, humanos ou não. A compaixão tem a vantagem de reduzir o próprio egoísmo através da compreensão dos infortúnios dos outros.


Por fim, vejamos a palavra "indiferença” e o uso da indiferença em discurso do Buda:


*Kalattaya-anicca Sutta (SN XXII.9) - Impermanente nos Três Tempos*

Em Savatthi. “Bhikkhus, a forma é impermanente, ambos do passado e do futuro, sem falar no presente. Vendo desse modo, bhikkhus, o nobre discípulo bem instruído é indiferente em relação à forma do passado; ele não busca o prazer na forma do futuro; e ele pratica para o desencantamento em relação à forma no presente, pelo seu desaparecimento e cessação.

“A sensação é impermanente ... A percepção é impermanente ... As formações volitivas são impermanentes ... A consciência é impermanente, ambos do passado e do futuro, sem falar no presente. Vendo desse modo, bhikkhus, o nobre discípulo bem instruído é indiferente em relação à consciência do passado; ele não busca o prazer na consciência do futuro; e ele pratica para o desencantamento em relação à consciência no presente, pelo seu desaparecimento e cessação.”


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